quarta-feira, 16 de maio de 2012

O tempo

lento e quente
com o passar do tempo
tornam-se os dias de quem
olha a retina exposta indisposta
rotina da vida que se esvai
como veia entre os dedos areia
como sangue azul
de vaso venoso rompido
artéria dilacerada rasgada
como pagina virada como rio
que corre no leito e morre
no mar.

enquanto isso acontece nada
chaga o ônibus ao ponto final
que me engole no centro
da cidade onde antes
era rio que tinha praia
penso nos coqueiros metafísicos que bailavam
ao vento que vinha do sul e o rio segue
embaixo do concreto agora
esgoto feito discreto fato
sem motivo de riso
perde-se o rio embaixo da cidade onde
um dia era cachoeira
sem piedade agora
somente pasmaceira.


Imagem: Thomas Eakins (History of a Jump, 1885).

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