ainda quando menino fui atropelado
atropelado por um automóvel móvel
como o vento que ventava do sul
frio como ventania invisível
jogado ao solo como pacote indefeso
na poeira vermelha como a lama do inferno
meu poema estava escrito na poeira levantada
pelo carro dirigido pelo motorista bêbado
que atropelou o menino que vinha de bicicleta
olhando as estrelas de olhos fechados
sentindo o vento nos cabelos que já não tenho mais
lá vai o menino de bicicleta descendo a ladeira
cabelos ao vento abraços e braços abertos
levado pelo tempo quando o choque
arremessa para o céu do olhar
no atropelamento do menino o poema sai voando
estrelado estatela no solo a solidão do menino
que vinha sonhando com as estrelas
hoje quando vai chover o poema encravado
no joelho dói na articulação da junta desconjuntada
no tombo do atropelado
um século se passou mas o tombo ainda é um poema.
Escultura: Benjamin Paul Akers, Dead Peare Diver (Pescador de Pérolas Morto), Portland Museum of Art, OR, USA.

Nenhum comentário:
Postar um comentário